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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

CONVICÇÃO

Quando um jogador erra um pênalti raramente aceitará bater um próximo durante o jogo.

A clara vantagem moral do goleiro apaga a tranquilidade do batedor. O torcedor também não ajuda, e passa a vaiar qualquer ameaça à sua alegria, proveniente de um ídolo ou não.

Sou fascinado pelo exemplo do atacante argentino Martín Palermo, o El Loco. O maior goleador da história do Boca Juniors protagonizou na seleção de seu país a proeza de desperdiçar três penalidades numa única partida. O feito memorável ocorreu contra a Colômbia, em julho de 1999, pela Copa América.

Não me espanto pelas três chances decisivas e letais de gol postas fora, que asseguraria o empate da Argentina, mas sua teimosia inabalável de permanecer tomando a bola para si na marca branca da pequena área.

- Deixa comigo, agora vai!

Sua insistência é heroica, mítica. Palermo é primo de terceiro grau de Electra, dublê de Sísifo, cover dos corvos de Prometeu. Ele não se preocupou em proteger sua trajetória vitoriosa, em conservar sua reputação imaculada, abriu a guarda à crítica, largou a zona confortável da normalidade, permitiu-se extrapolar a cota de vexames que cada um suporta por dia. Enfrentou o próprio azar, para que se tornasse maldição ou redenção.

Muitos dirão que ele perdeu a cabeça, não teve bom senso, vejo o contrário: ele assumiu que era uma noite ruim e foi até o fim, não culpou o vento, a chuteira, o gramado, o juiz, não usou atenuante, não transferiu o peso da falha a possíveis movimentos irregulares do goleiro, não procurou se isentar da responsabilidade de decidir, não se apequenou perante o primeiro tombo, confiou em seu talento e insistiu. Assim que admitiu bater a segunda cobrança, estava fadado a seguir com a terceira, a quarta, a quinta, a sexta, quantas surgissem. Não desistiria nunca. Ele levou para o lado pessoal, como deveríamos fazer sempre, ruim é quando levamos para o lado público e desistimos.

Ele chutaria de tudo o que é jeito, e talvez errasse consecutivamente, pela vida inteira.

Quem teria a mesma intrepidez? Quem bateria numa porta para ser negado sucessivas vezes? Nem o mendigo sobrevive à reincidência. No plano amoroso, só nos declaramos quando temos absoluta certeza da reciprocidade, e olhe lá! Poucos se arriscam sem absoluta confiança de uma resposta positiva. Dizer o "eu te amo" vem engasgado, confuso, rasteiro - o outro pede para repetir de propósito. Na ausência de certeza, recuamos, fingimos que nada aconteceu, escondemos os próprios sentimentos. Existe um medo de se confessar, justamente para não ser zombado, para não ser chamado de burro.

Covardia é fugir do fracasso, coragem é aceitar o fracasso. Palermo não foi palerma.


*Texto de Fabrício Carpinejar, retirado daqui: http://carpinejar.blogspot.com/

terça-feira, 17 de maio de 2011

Carpe diem

“Vivemos esperando o dia em que seremos melhores. Melhores na dor, melhores no amor, melhores em tudo...” . “Se eu pudesse mudar algo no meu passado...”. Esqueça o presente.
Presente é algo bom, todos gostam de receber. Todos querem desempacotar, rasgar o embrulho, ir direto para a surpresa. E, assim, perdem o presente. Deixam-no escapar. Pois se importaram mais com o que o futuro (mesmo que bem próximo) reservara. O presente é o único tempo verbal não vivido. Parece não existir, ou não ter valor.
A dieta começarei na segunda-feira para que daqui 3 semanas eu esteja mais magra. Quando eu era criança, as coisas eram diferentes, eu era mais feliz. O que fiz ontem? Planos. O que farei hoje? Esperarei o dia passar. Amanhã? Lamentarei o tempo perdido.
Viver o hoje é ilusão. Enquanto estou vivendo-o, não percebo. Depois sinto falta. Afinal, minha lágrima não fica parada em meu olho; ela cai, molha o chão e depois seca; antes de acontecer já sei que não passa de pretérito.
Futuro-mais-que-perfeito! É assim que será minha vida. Penso nisso desde minha infância. Aliás, tenho ótimas lembranças dessa fase. Desculpa, não posso conversar muito, nem saborear esse momento, tenho coisas a agendar.
Quer uma dica que te faz ver melhor o ontem e vivenciar bem o amanhã? Presenteie-se com o hoje.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Um lugar do caralho

Rock n’ roll, muita cerveja, infinitos maços de cigarro e mulheres (não quaisquer). Assim era a casa. Toda noite era festa - e todos os dias eram noites - não essas de casas noturnas da cidade baixa, cheias de caras tentando ser mais do que realmente são e garotas tentando ser vagabundas comedidas. Mas como as do CBGB. A música era finamente selecionada passando por Beatles, The Hives, Jet, Strokes, ACDC, saudosos clássicos e futuros clássicos. Nada de lerê lerê, morros cariocas, popozudas, frutas e essas merdas. Nada de pessoas posers, ninguém fingindo estar bêbado, fingindo entender muito sobre determinado assunto – como se isso o tornasse melhor. Apenas a pura antropologia sem cera. Alguns instrumentos espalhados por diferentes cômodos, à espera. Um Jimmy dedilhando uma guitarra aqui; um Steve noutro baixo ali; um tal de Neil na bateria acolá; um certo John rabiscando um caderno; uma certa Janis dividindo o microfone com um Freddie.
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Sex on the beach, Mojito, Frozen e outros coquetéis são completamente desconhecidos. Só se tem ciência de cervejas, whiskys, vinhos, etc. Sem misturas. Puras. Possui inúmeras ideologias, muita revolta, incontáveis debates, muita atitude e ao mesmo tempo é o lugar mais paz e amor da terra.
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Um lugar onde João Roberto pode fazer seus rachas sem nunca encontrar a estrada da morte. Onde Jeremy não sofre. Onde Sheena pode ser simplesmente uma punk rocker. Onde Jude pega uma canção triste e a faz melhor. Um lugar com chuvas de novembro, onde algumas donzelas tem medo da escuridão. Um local em que se vê uma pequena silhueta de um homem e Scaramouch realmente dance o fandango. Onde pessoas estão comprando uma escadaria para o paraíso.
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Um lugar onde as pessoas sejam mesmo afudê. Um lugar onde as pessoas sejam loucas... um lugar do caralho.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A beleza da imperfeição

Penélope Cruz! Sim, Penélope Cruz com direito a ponto de exclamação. Existe um conceito mundial sobre beleza. Constantemente vemos personalidades sendo eleitas as pessoas mais sexys do planeta. Eu sempre discordo do ranking. No mínimo, algumas posições estão trocadas. Fato. Mas não é sobre isso que quero tratar. Esse texto é, na verdade, uma declaração. Uma confissão.

Confesso aqui meu gosto. Bom ou mal, explicitá-lo-ei. Gosto da mesóclises. Mas prender-me-ei às mulheres. O gosto popular tende à fartura, pelo menos no Brasil. Mulher tem que ter seios fartos. Mulher tem que ter glúteos definidamente arredondados, deveras amplos. Perdão. O gosto popular prefere é uma bunda arrebitada, uma rabeta fenomenal e uns peitões, melões mesmo. Acho que agora ficou mais claro. Meu gosto não vai totalmente ao – nem de - encontro dessa erudita adjetivação. Para mim, o principal é o defeito. Sim, a imperfeição. Mulher perfeita é aquela cuja beleza se destaca, exatamente, por não ser total. Não me entenda mal, não estou dizendo que tenho predileção por feias. Nem feinhas. – Nesse momento imagino as (poucas) mulheres com as quais já me relacionei se auto analisando e tentando, em vão, descobrir seu “defeito” -. A atração não surge de uma simples falha visível. O sex appeal não está na gordurinha a mais, ou na curva da sobrancelha. É algo maior. Mais íntimo. Todavia não deixa de estar exposto. Não de maneira vulgar. Não é qualquer homem que repara, verdadeiramente, numa mulher. Convenhamos, reparar veementemente na mulher, não é da natureza masculina. Raras vezes acontece.

Por isso, a mulher perfeita é a Penélope Cruz. Se, numa roda de amigos, eu afirmasse isso, poderia ser linchado. Tudo bem, também me apetece o exagero.

- Como assim? Enlouqueceu?

- Mas ela tem algo visivelmente misterioso. Uma certa “imperfeição” que a torna perfeita.

- Acho que tu anda meio aviadado.

Sugiro que repare bem nela. Aproveite o momento. Deleite-se. É algo inexplicável o que exala dessa mulher. Mas exala. E agradeço a Deus por isso. Aliás, tá aí uma Cruz que eu teria o maior prazer em carregar.